Sempre ouvi histórias de soldados que voltavam da guerra e mostravam com orgulho suas cicatrizes. Esses dias,  percebi que isso era uma bela lição.

Cicatrizes são histórias, temos escolhas de como ‘as mostraremos ou as esconderemos’. Falo de cicatrizes físicas, emocionais, cicatrizes da alma. Então, comecei as ‘buscas’ pelas minhas cicatrizes.

Comecei pelas físicas – as mais fáceis… Entre tombos, marcas de queimaduras de uma ‘mulher desastrada’, porém persistente na cozinha, parei na mais importante: duas cesáreas! Imediatamente lembrei do orgulho dos soldados… Ah, que orgulho dessa ‘marquinha’, foi através dela que ‘conheci’ meus tesouros.

Lembrei com surpresa que ela nunca me incomodou, nunca tentei através de procedimentos estéticos ‘tira la’. Por que será? Talvez pela história e significado alegre. Que  orgulho poder carregá-las comigo. Continuei a ‘busca’ e ao ver minha mão, reparei na marca que a minha aliança me deixou, lembrei do dia do meu casamento onde disse – em hebraico- perante todos: “Ani ledodi vedodi li” – “Eu sou para o meu amado, e ele é para mim.

Entendi que o compartilhar é o ‘melhor amigo’ do casamento. Que aqueles que estão comprometidos em construir um lar só podem seguir esse caminho. Olhei com felicidade os ‘presentes’ – verdadeiros diamantes – que ganhei até aqui, e que jamais imaginei ganhá-los. Senti orgulho dessa minha marca, que tenho construído, e quem eu escolhi para caminhar comigo.

Continuei a busca, que agora, passou para o lado emocional, marcas na alma… Comecei a viagem no tempo, lembrei de verdadeiras feridas – em carne viva – que um dia pensei que jamais cicatrizariam, perdas fora da ordem natural, lembrei do salmista que diz no salmo 30: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

Quantas vezes me ‘apeguei’ a esse salmo, rezava para que o tempo e a dor passassem rápido. Sim, a cicatriz chegou, a dor se transformou em saudades, não mais aquela que doía, mas uma saudades cheia de agradecimento, com profundezas espirituais, com intimidade com D’us.

Carinho e orgulho por essa cicatriz. Passei para a busca de outras, achei feridas – nada profundas – ainda sem cicatrização, pessoas/situações que não valiam a pena ‘serem transformadas’ em cicatrizes. Feridas, que não deveriam ser cultivadas. Um adeus, sem nenhuma importância, deveria ser dado, um adeus metafórico, mas que era meu dever dá-lo. E, comecei o processo de despedidas… Entendi, que tem pessoas e situações que nós cultivamos, amarramos em nossas vidas, nos perdemos nisso, enquanto a fila de ‘diamantes’ está nos esperamos. E, continuei… Passei uma ‘pomada’ nas cicatrizes ‘feias’ que encontrei, tentei ver a parte boa, o que elas me ajudaram na minha trajetória, comecei a vê-las de outra forma. Encontrei cicatrizes que ao olhar mais de perto eram ‘falsas’ aquelas que não me pertenciam – medos, culpas, traumas – de outras pessoas, mas que com a maturidade, vi que não eram minhas –  joguei as no lixo.

Quantas histórias que carregamos, quantas lágrimas que regam cicatrizes… Quantas cicatrizes que transformamos em muletas, e com isso justificamos nossa ‘estagnação’ na vida. Na minha ‘busca’ pelas cicatrizes, entendi que elas são feitas para serem verdadeiros troféus, e que nenhum outro ‘papel ou roupa’ lhes cabem. Se, ainda suas cicatrizes não se transformam em troféus, cabe somente a você esse trabalho de transformação. Que tenhamos essa garra para essas modificações, que com orgulho possamos levantar esses troféus, e como soldados, voltar para ‘casa’ com satisfação e orgulho de dever cumprido.

Nurya Ribeiro

 

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